Sobre o tal do desapego (ou a falta dele)

CLARICE2

Em uma de suas crônicas, Martha Medeiros diz que “passar uma vida inteira desapegada das pessoas seria entregar-se ao vazio existencial (…) desapegar-se em troca de paz é uma falácia, só demonstra covardia de viver”. Ultimamente o que mais se fala por aí é que devemos levar uma vida desapegada, sem criar expectativas e esperar nada do próximo, pois só assim não nos decepcionamos. Concordo em partes… Às vezes, pra que possamos seguir em frente e nos livrar de certas dores emocionais, o desapego é mais que bem-vindo, é necessário. Não esperar nada de ninguém pois assim tudo que vier é lucro. Desapegar de lugares, pessoas, sentimentos que só nos fazem mal e nos deixam pra baixo, porque só assim conseguimos seguir em frente e encarar o mundo de novo de mente e peito aberto. O tal do desapego, porém, não vem sendo muito bem praticado e muitos confundem isso com um estilo de vida totalmente “nem aí” pra nada ou ninguém. Acabamos criando uma geração de pessoas que têm medo. Medo de sentir, medo de tentar, medo de arriscar, simplesmente pelo medo de se apegar e serem julgadas de forma diferente por estarem desafiando essa sociedade desapegada. “Como assim, você tá gostando de alguém com quem só ficou umas duas vezes? Você se apega muito fácil, só vai se machucar”. Mas e daí? Não é pecado se machucar às vezes, na verdade nos ajuda e muito a amadurecer. Você não precisa ser aquela pessoa que não se deixa envolver por ninguém apenas pelo medo do que pode acontecer. Do mesmo modo não precisa ser aquela que se apaixona a cada esquina, se entregando de corpo e alma pra qualquer um que dê o mínimo e atenção. Não precisamos ser 8 ou 80, cadê o meio termo? O problema das pessoas é que são extremistas demais, em um mundo onde ficar em cima do muro às vezes é necessário.